Não podemos negar que estamos vivendo dias sombrios na comunidade LGBTT+, dias difíceis não só para nossa comunidade, mas também para todas as outras; vivemos momentos de hierarquizações causadas pelos padrões de beleza, financeiros e sociais. Cada vez mais, vemos os públicos que por si só já são fragmentados de forma bruta pela sociedade branca, heteronormativa e burguesa; fragmentando-se entre si mesmas.
Afirmo isso baseado em vivências que são dolorosas e que vejo todos os dias, seja no Facebook, no Snapchat, nos grupos de conversas e sacanagens no Whatsapp, ou em qualquer meio virtual ou físico. A famosa frase "é questão de gosto mesmo" está muito mal disfarçada pelos padrões impostos pela sociedade que corresponde a isso, e impõem nas outras comunidades que foram fragmentadas por estarem por fora, é nesse momento que a busca pelo corpo "perfeito" começa a destruir os neurônios alheios tirando do campo de visão do serumaninho, o que realmente importa para se viver bem.
E para se viver bem não precisamos ter 0% de gordura no corpo, não precisamos ter dentes mais claros que a cor da tinta branca do paint, não precisamos ter o cabelo liso e a barba fechada e aparada com aparador de pelos que custa 500,00 reais; não precisamos também ter um iPhone ou um Samsung s7 Edge, tampouco precisamos ser brancos ou se embranquecer o máximo possível, e para se viver bem não precisamos também nos endividar comprando roupas importadas, perfumes caros ou algo do tipo.
Tudo o que se diz "precisar para viver bem" é fruto de um estereótipo forçado que nos enfiaram goela abaixo há anos atrás e por vezes me pego pensando se minhas orelhas de abano vão agradar a todo mundo, ok, dizem serem fofas em mim... mas e nos outros que também têm orelhas de abano? Será que dizem serem fofas também?
Vivemos dias em que na comunidade LGBTT+ por exemplo, o gay branco quer ser superior ao gay negro por ser branco; onde o gay rico quer ser superior ao gay pobre pq o gay pobre "não pode" ter tudo em abundância como ele e por isso tá lutando diariamente; e se o gay for branco e rico, aí fudeu; se o gay não tiver viajado o mundo aos 26 anos, nossa que absurdo. E se o gay não usar Calvin Klein? ABSURDO TOTAL.
Precisamos entender que não pertencemos ao mundo de padrões e que nossa luta deve ser para quebrá-los e fazer que a sociedade veja que todo mundo é belo em suas particularidades, em seus traços marcantes, em suas subjetividades. O que constrói uma beleza permanente, não é o que você veste ou a cor da sua pele, ou a camisa pólo de marca, o perfume que chama a atenção pelo cheiro, a unha feita semanalmente, o cabelo liso ou alisado... o que constrói uma beleza, é o que você é, é a forma como você vê o mundo e os problemas que circulam na sua vida. Os inúmeros padrões que foram criados, foram apenas criados para fragmentar ainda mais a sociedade.
Você pode usar CK, pode ter cabelo liso ou alisado, pode viajar o mundo inteiro, pode clarear os dentes, pode ter 0% de gordura corporal, pode ter um iPhone ou um Samsung Edge, pode ter o que quiser, usar o que quiser. Desde que tudo isso não te faça sentir superior a alguém, ao seu semelhante, desde que tudo isso não seja critério na sua vida para achar alguém mais ou menos bonito que você.
Respeite a beleza de todos, estamos em 2017 e precisamos parar de impor o que é belo aos nossos olhos, aos olhos alheios. Antes de achar bonito, conheça, pois, existem inúmeros casos que achamos a pessoa linda e quando conhecemos... aquela beleza se esvai como água de chuva nos bueiros das ruas.
Beleza não está nos olhos azuis ou verdes, está no que está dentro desses olhos. Beleza não está nos fios do seu cabelo, está dentro de onde ele vem. A sua beleza está apenas em você, sinta-se a pessoa mais linda do mundo, e todos te verão dessa forma.
DESPADRONIZE-SE.
Senta que lá vem história
"Senta que lá vem história", é um blog de ideias sobre os assuntos da atualidade em especial as militâncias, as lutas LGBTT's, e aos assuntos que mais são comentados. Seria um blog de críticas? Talvez, ou não.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Liberdade ou superioridade?
Recentemente vi um post no Facebook, onde o autor questionava a ideia das lutas alheias e as posturas dos militantes de uma certa classe; não vou precisar dizer que classe é essa, pois, creio eu que falarei de um modo geral e não apenas direcionado à um público.
(preciso assumir que estou com dor nos ombros de tanta tensão ao escrever esse texto, são exatamente esses "militantes" que verão este texto como algo ruim e eu odeio confusão e gritaria - SQN).
Conversando recentemente com algumas pessoas na faculdade, no antigo trabalho, e até mesmo no Facebook; pude perceber que não sou o único do meio que tem a mesma visão do que uma certa parcela dos movimentos deixam transparecer.
Com o passar dos anos os públicos foram se renovando e as conquistas foram acontecendo - mesmo que aos poucos - de acordo com as lutas de cada classe e isso já é de conhecimento público. Recentemente se têm notado que há uma certa parcela dentro desses movimentos que acabaram por confundir o verdadeiro objetivo deste e por esta confusão, o desfecho acabou sendo a precarização na "fama" desses movimentos que antes eram até respeitados e hoje acabaram perdendo - um pouco que seja - a "moral" dentro da sociedade em que a mesma está inserida, e como consequência, perdemos espaço.
Mas o que tenho me questionado sobre isso tudo é o seguinte pensamento: se Paulo Freire nos disse que se a educação que recebemos não for libertadora, o sonho de nós oprimidos, seria nos tornarmos opressores. E vejo que é realmente isso o que está acontecendo com essas parcelas; o tempo inteiro as pessoas estão convertendo essa luta de liberdade e igualdade, por objetivos de superioridade aos demais.
Entendo perfeitamente que se sentir superior é gostoso, é bom, infla nosso ego e nos deixa com o peito cheio de autoconfiança de quem somos; mas ter ciência que a superioridade vem com a forma de como se luta é fundamental. Oprimir o opressor, é dizer a ele que queremos ser iguais a ele, ou seja, queremos oprimir também, queremos ser opressores. E se por momentos pensamos desta forma, nossa luta não está sendo libertadora nem para nós mesmos que estamos nela.
Faltam em nosso meio, estratégias inteligentes que atinjam nossos opressores a nosso favor, que não sejam estratégias de humilhação e opressão.
Faltam pessoas mais envolvidas com a luta e com o VERDADEIRO objetivo.
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